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artigo de 2006, sobre uma experiência de trabalho com adolescentes em conflito com a lei

Vínculo terapêutico em instituições de privação de liberdade sob o olhar de uma psicóloga

Chaves, Karine Belmont

Logo quando aceitei o desafio de atuar junto aos adolescentes, senti que a tarefa não era impossível. Já trabalhava com presos, adultos em uma unidade prisional de regime fechado. E afinal, outros trabalham. Adolescentes em conflito com a lei, cumprindo medidas sócio-educativas. Situações de privação de liberdade. Existe um mito de que os adolescentes são mais difíceis, pela questões inerentes da fase de desenvolvimento, ditos “rebeldes”, irreverentes. De início senti uma resistência por parte deles em estabelecer um vínculo com a psicóloga. Traduzi tal comportamento como se estivessem testando esta nova pessoa, um processo de conhecimento e aceitação.
Pela palavra vínculo entende-se “tudo o que ata, liga ou aperta; ligação moral” (AURÉLIO, 1993). O vínculo é reconhecido por diversos estudiosos e profissionais, como capaz de facilitar a obtenção de sucesso nos objetivos de trabalho. Para SCARPATO (2001), o vínculo propicia um ambiente favorável para enfrentar as muitas adversidades, para níveis altos de angustia e falta de sentido. O vinculo é um dos elementos básicos do processo terapêutico.” Este também é visto como fundamental nas relações pessoais. Numa visão psicanalítica, sabe-se que aprendemos a estabelecê-lo nas nossas ligações primárias, como a de mãe e filho. Percebe-se sua importância descrita por WINNICOTT (1987), quando fala de crianças “difíceis” em terapia em unidades residenciais, com as crianças em sua maioria oriundas de lares insatisfatórios, ou que tinham vivido desintegração da família, entre outros :
“Por experiências de lar primário entende-se a experiência de um ambiente adaptado às necessidades especiais da criança, sem o que não podem ser estabelecidos os alicerces da saúde mental. Sem alguém especificamente orientado para as suas necessidades, a criança não pode encontrar uma relação operacional com a realidade externa. Sem alguém que lhe proporcione satisfações instintivas razoáveis, a criança não pode descobrir seu corpo nem desenvolver uma personalidade integrada. Sem uma pessoa a quem possa amar e odiar, a criança não pode chegar a saber amar e odiar a mesma pessoa e, assim, não pode descobrir seu sentimento de culpa nem o desejo de restaurar e recuperar. Sem um ambiente humano e físico limitado que ela possa conhecer, a criança não pode descobrir até que ponto suas idéias agressivas não conseguem realmente destruir e, por conseguinte, não pode discernir fantasia de fato. Sem um pai e uma mãe que estejam juntos e assumam juntos a responsabilidade por ela, a criança não pode encontrar e expressar seu impulso para separá-los nem sentir alívio por não conseguir fazê-lo. O desenvolvimento emocional dos primeiros anos é complexo e não pode ser omitido, e toda criança necessita absolutamente de um certo grau de ambiente favorável se quiser transpor os primeiros e essenciais estágios desse desenvolvimento.” (p.63-64)

E segundo o autor, essas experiências de lar primário oferecidas em alojamentos necessitam ter estabilidade de anos, e sua contribuição é no sentido de reduzir o fracasso do próprio lar da criança.
O vínculo terapêutico em muitas instituições ligadas ao meio jurídico é prejudicado. Os mesmos se sentem observados, investigados, e não se abrem, e raramente falam de si espontaneamente. Isso pode acontecer quando o mesmo não conhece o funcionamento das instituições, e logo depois, quando passam a conviver com outros, são contaminados pela idéia de que é melhor esconder, manipular, omitir e mentir. Temem ser desmascarados ou simplesmente conhecidos, imaginando que os juizes podem não liberá-los no acompanhamento periódico, deixando-os mais tempo em privação de liberdade. Policiam suas respostas e muitas vezes só querem saber dos técnicos como instrumentos para sua liberdade, para contatar suas famílias, ou para conseguir atendimentos, materiais e benefícios específicos. Segundo BELLO (2001),
“isso ocorre pela noção de implicação utilizada, que surge do conceito de contratransferência institucional, produzida pela Psicoterapia Institucional na primeira metade da década de 60 e assinala uma nova postura do “investigador” do objeto. Aqui sujeito e objeto do conhecimento se constituem no mesmo momento, no mesmo processo.”
Qualquer psicólogo que inicie um trabalho nesse meio lida com situações desafiadoras, encontrando dificuldades e muitas vezes, frustrações. Está sujeito a imaginar que a dificuldade é apenas sua enquanto profissional, mas com a própria experiência, e a de outros profissionais, acaba por compreender que existem condições institucionais que comprometem ou dificultam tal vínculo.
O ECA delimita que as instituições que abrigam “adolescentes em conflito com a lei” (o termo “menor” está em desuso) deveriam se parecer com escolas, visto não apenas sua nomenclatura, mas que permeia toda sua doutrina de proteção integral. As prisões, já absorvem noções ditas humanizadoras. E a Psicologia tem nela papel fundamental, também instituído posteriormente para humanizar o sistema, onde se propõe a acolher, a trabalhar com ele questões de comportamento e conflitos emocionais, para que amadureçam, porém não podemos negar a imagem da terapia como sanção nas instituições. Ao lado da visão humanizadora, a avaliadora : é a mesma Psicologia que o avalia, muitas vezes diagnostica, e relata ao poder judiciário toda sua possível evolução, e aí, não só as coisas boas, como eles desejam nas suas fantasias. Embora outros profissionais estejam envolvidos no processo, ainda se atribui muita responsabilidade aos laudos e pareceres psicológicos. Quando se tratam de presos, adultos, isso se repete nas situações onde se realiza o exame criminológico, que visa avaliar as condições do mesmo para retorno ao convívio social ou situações de progressões de regime. A valorização da capacidade e da habilidade do profissional, e da ciência psicológica, contribuindo para decisões judiciais, tem seu lado prejudicial. Para que isto possa ser evitado, ou minimizado suas conseqüências no processo, tenho buscado o caminho da autenticidade, da verdade, de lidar com o que é real, sem máscaras, o que é um trabalho muitas vezes desgastante. Reflito também sobre a possibilidade de dois psicólogos com funções definidas, distintamente (...)
Estabelecer uma relação empática, buscando a existência de um espaço onde o outro possa se sentir acolhido, respeitado é muito difícil, pois os adolescentes em geral buscam a satisfação dos seus desejos, e muitos tem como característica baixa tolerância à frustração. Então, quando não são “atendidos” reagem de modo impulsivo. Transferem para os funcionários das instituições a responsabilidade de estarem “presos”, pois se sentem punidos, e muitas vezes perseguidos. Não vivenciaram em sua história a disponibilidade de alguém para acolhê-lo, não sabem o que significa ter alguém para falar de suas dores, de seus fracassos, de seus sonhos. Muitas vezes em sua educação não tiveram a mensagem de que pudessem ser “alguém na vida”. Não sabem quais habilidades tem, nem as que podem desenvolver.
As dificuldades que se apresentam podem ser compreendidas historicamente, com raízes na atribuição de papéis, de corretor, avaliador, e hoje são adotadas funções ditas humanizadoras, que se opõem ou se sobrepõem. Existem casos em que o vínculo é adequadamente estabelecido, verdadeiramente estabelecido, e é possível trabalhar conteúdos internos em profundidade. Mas, a maioria estabelece relações superficiais, com mínimas condições de desenvolvimento. Apesar das dificuldades encontradas, alguns conseguem uma vinculação onde é possível acompanhar e contribuir para o seu desenvolvimento. O estabelecimento de relações verdadeiras, e mais maduras é um dos objetivos do trabalho.
Aspectos descritos por ROGERS (1985) na terapia centrada no cliente, como elementos facilitadores para que uma relação de ajuda se estabeleça podem favorecer o entendimento de cada indivíduo que se apresenta diante de nós. Em seu livro são apresentados estudos que comprovam que fatores como empatia, consideração positiva incondicional e congruência tem se mostrado eficazes para o desenvolvimento de seus clientes.
FREIRE (2000), realizou alguns estudos e descobriu que fatores como estes, comuns às diversas abordagens é que contribuem de forma significativa para a eficácia da psicoterapia.
Este é um desafio para a Psicologia : possibilitar um crescimento real dos aspectos da vida interior do sujeito que se apresenta diante de nós, dentro das instituições. Proporcionar que o sujeito diante de nós possa pensar e repensar na sua história.
As resistências iniciais, observadas no processo de vinculação podem ser transpostas com muita dedicação e trabalho. Leva-se um certo tempo para se estabelecer uma relação de confiança, por exemplo. Lembrando-se ainda, que as questões de sigilo e confidenciabilidade muitas vezes são comprometidas por aspectos de segurança que são considerados nas instituições de privação de liberdade. Algumas vezes as entrevistas são realizadas com uma escuta secundária (agentes de segurança, penitenciários e educadores sociais),ou ainda por elementos hostis como o parlatório.
Embora reconheçamos as responsabilidades e deveres do Estado, e que também é nosso dever lutar para que melhorias sejam implementadas e conquistas sejam de fato concretizadas, é possível caminhar, no sentido de desenvolvimento individual e conseqüente desenvolvimento social, melhorando também a qualidade dos vínculos institucionais.
Dentro de uma abordagem humanista, do que chamamos atualmente de protagonismo juvenil, onde cada sujeito tem capacidade de auto-realizar-se, transpondo dificuldades, tendo responsabilidades pela própria história, estes adolescentes podem ser autores da própria história, e nós, psicólogos, podemos ser facilitadores desse processo.
Independente da formação do profissional especificamente, faz-se necessário estar consciente de como as relações são estabelecidas e da qualidade dos vínculos estabelecidos, ou que se buscam estabelecer, dentro das instituições, para que se os aspectos observados não sejam barreiras para a evolução do sujeito deste processo, e que se atinjam os objetivos de desenvolvimento, individual e social.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS :


 BELLO, Lyana Macedo. Jovens infratores e a terapia : uma questão para os “observadores da multiplicidade humana.” Psicologia Ciência e Profissão, 2001, 21 (4), 34-43.

 Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei 8.069 de 13 de julho de 1990.

 FREIRE, Elizabeth S. A terapia é a relação e o cliente é o terapeuta. Revista PSICO – USF, V.5, N.2, PP 83-98, jul/dez 2000.

 ROGERS, Carl R. Torna-se pessoa, [tradução Manuel José do Carmo Ferreira e Alvamar Lamparelli; revisão técnica Claudia Berliner]. 5 ed. – São Paulo : Martins Fontes, 1997.

 SCARPATO, Artur Thiago. A dinâmica formativa do vinculo terapêutico revista Hermes do Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo, n 6, 2001, p. 107-123

 WINNICOTT, Donald W., Privação e delinqüência, [tradução Álvaro Cabral; revisão da tradução Mônica Stahel]. – 4 ed. São Paulo : Martins Fontes, 2005.