Visitantes

contador grátis

14 de dez de 2011

Aos colegas do grupo SEJU/ Facebook .

Caros colegas da SEJU, mais especificamente do DEPEN,

O grupo surgiu por uma ideia simples, de ter um espaço de encontro virtual, de troca, de diálogo, que hoje a tecnologia pode nos oferecer, visto que temos poucas oportunidades concretas de encontro, em reuniões e capacitações ofertados pela nossa secretaria, e é possível compreender, que mesmo com lideranças bem intencionadas, temos um complexo sistema que envolve política, demanda recursos, e dentro disso, é claro, a atribuição de valor para que ações sejam feitas.
Me surpreendi, e continuo me surpreendendo, com o número expressivo de pessoas que tem se reunido aqui, muitas vezes por curiosidade apenas, mas que acabam por compartilhar suas realidades (se não única), suas angústias e suas vitórias. Muitos observam, alguns se colocam, partilham, contribuem, criticam, e esse espaço ( assim acontece com o funcionamento dos grupos não-dirigidos) toma sua forma de modo espontâneo, e a gestalt acontece pela compreensão da junção das partes, e esse todo se revela, nessa imagem que vai se compondo, pra nós, e para o outro. O que revela, é que existem pessoas que tem ao menos uma afinidade: somos servidores públicos, partes do corpo da SEJU. E que parte significativa somos, quando nos unimos!
Além das nossas condições específicas de servidores, inseridos em cargos com atribuições específicas (agentes de execução, agentes profissionais e agentes de apoio), não só podemos aqui compartilhar nossas carências, necessidades intrínsecas do trabalho (como suas condições, falta de recursos, estrutura, equipamentos, ferramentas, etc, e a importante remuneração), também encontramos aqui espaço para dialogar sobre o sistema penitenciário como um todo : as dificuldades e limitações inerentes á prisão, e suas possibilidades. Ao ouvir o outro , podemos conhece-lo e reconhece-lo. Ao nos posicionarmos (e mesmo a postura de retraimento ou reserva), também nos revelamos, e nos deixamos conhecer e reconhecer. Reconhecimento é algo almejado pelo ser humano. Que bom existir no mundo, e que bom existir no outro! Saber que ocupamos um lugar neste universo, que somos parte de algo. Bom ás vezes pensar, se sentir ouvido, saber como o outro pensa... assim temos e criamos parâmetros constantemente. Veja como a vida é dinâmica!
E neste grupo, vamos encontrando diversas personalidades. Que em algumas características uns se identificam mais com uns, que com outros. E aqui também consideramos o processo de identidade (...). Observamos neste grupo, neste espaço limitado (com inúmeras possibilidades, olha que ironia!), diferentes pessoas. Uns mais novos, uns mais velhos. Uns iniciando uma atividade profissional, outros no meio dela, outros no final de sua trajetória. Uns mais estudados, outros menos. E não menos inteligentes. Uns, mais dedicados, envolvidos, comprometidos, outros menos. E não menos importantes. Todos partes essenciais para que o projeto aconteça. Veja que, mesmo quando o outro parece não corresponder ao que desejamos ou idealizamos, mesmo em número, sentimos falta de um componente da equipe. Somos necessários, e também precisamos do outro. Então, penso que excluí-lo não é uma boa opção. Ao nos depararmos com uma pessoa, pensamos sobre ela, mesmo que rapidamente, e irresistivelmente, a julgamos. Elegemos dentro dos nossos parâmetros, um lugar pra ela, dentro da nossa escala de valor pessoal. Quando o outro nos parece muito diferente, o julgamento ocorre de forma mais dura, e muitas vezes o afasta de nós. Tem coisas, e também pessoas, que rejeitamos. E nossa sociedade está mesmo cheia de estigmas. E nós também os reproduzimos, dentro e fora de nós. Ao acolher, ou isolar. Podemos considerar este um processo natural, afinal, somos humanos, e isso ao que parece, faz parte de nossa cultura.
Uns são eleitos melhores, outros piores. Uns legais, outros chatos, uns competentes, outros incompetentes. E afinal, o que ganhamos com isso? Me pergunto constantemente. Me cobro. Me vejo reproduzindo, afinal, humana. Faço críticas (e talvez como essa agora, mesmo que pretenda parecer reflexão). E entendemos a necessidade de transformação. Ah, mudanças não são fáceis! Mudar, repensar, reconhecer. Difícil. Pra uns, infelizmente, às vezes mais do que pra outros. E tarefa maior ainda, é aceitar. Ok, talvez, e por vezes melhor, compreender.
Todos aqui, bem como fora, tem uma identidade. Uma história construída, por suas vivências. E essas compõem muito do que somos, bem como ajudam a compor nossa visão de mundo. Uns, mais otimistas, uns mais pessimistas, uns mais rígidos, outros mais flexíveis. Eu costumo observar, e quantas vezes erro no meu julgamento. E aprendi que quando ouvimos o outro, podemos compreender melhor a sua história. Talvez aceita-la seja de fato mais difícil, pois aceitar implica em aprovar de algum modo. Mas compreender é um processo mágico. Compreender o que o outro diz, porque diz, o que viveu, o que espera do mundo, nos faz mesmo entender. Aí temos aprendizado. Condição humana. Todos temos imperfeições.
E será que podemos nos achar mesmo melhor do que os outros? Ok, auto-estima é importante. Mas, acho grave, quando precisamos desqualificar o outro, para nos sentirmos melhor. Não dá pra gostar da gente, sem precisar ver o outro por baixo? É um exercício difícil mesmo. Não dá pra gostar do outro, ou simplesmente conviver, se este é tão diferente do que gostaríamos que fosse? É mesmo difícil.
Pensamos que nossas opiniões e nosso conhecimento são bons e suficientes. Sabe a frase que mais gosto na vida? (ou uma das): “Quanto mais sei, mais sei que nada sei”, de Sócrates. Quantas vezes fiz enfrentamentos, achando, considerando que eu estava certa, acreditando que o conhecimento que eu tinha me permitia dizer, e, depois de um tempo, a vida me apresentou coisas que me fizeram refletir, ou mesmo descobrir algo que eu não tinha visto, lido ou pensado, e tive que reconhecer que o outro estava certo. E o mais incrível? É que podemos estar certos ao mesmo tempo! Muitas vezes considerando que o parâmetro de análise que tenho, me permite uma visão, e que o outro, dentro do que ele sabe, e do que lhe foi apresentado do universo, também tem suas razões. Veja que a ciência reconhece que não existe verdade absoluta. As pesquisas compreendem suas limitações, e muitas vezes a necessidade de complementariedade.
Nossa, muitos devem ter cansado já das reflexões filosóficas. O que quero partilhar, são meus sentimentos e minhas análises. Entendendo que elas podem não ser absolutas. Me alegro, pelo encontro, pelo contato com tanta gente que vive um lugar comum, de servidores da SEJU, mas também me entristeço, quando vejo tanta gente desqualificar o outro. Vamos adiante.
Posso entender que o outro utiliza palavras hostis, “palavrões”, e pode ter aprendido como estratégia, recurso pra viver, extravasar sua raiva, seu descontentamento, ou mesmo se divertir(...).
Pergunto internamente, e constantemente, por que é necessário desvalorizar, desqualificar, ofender, humilhar, desrespeitar o outro, para sentir bem, para assegurar seu discurso, suas idéias e opiniões, para se afirmar no mundo?
Posso compreender nossa humanidade. Também assim me reconheço. Faço, julgo, exagero, erro, discordo. Pondero, considero, repenso, reconheço. E a grandiosidade, pra mim, é poder viver. Poder dialolgar, descobrir e tentar melhorar.
E não fazemos isso sozinhos. Então, grupo, todos tem um lugar, e um papel. Melhor agregar, que distanciar. Veja que bonita conquista de uma classe. Em nome de uma classe. Muitos se uniram, muitos participaram, muitos apoiaram.
O sindicato é bom ou ruim? Depende de que aspecto e em que momento se observa. Depende do quando somos capazes de enxergar. Se o que se pretende é perfeição e absoluta sintonia, então, de fato, não veremos nada que nos satisfaça. Não conheço a grande maioria dos componentes deste sindicato. Nem dos anteriores. Mas acredito que todos contribuem e tem um papel na história, até para nos mostrar que caminhos não podemos seguir, pelos erros cometidos, pelas vitórias não atingidas. Ah, concretizar nosso desejo depende de uma infinidade de questões. Não simplesmente de algumas pessoas. É toda uma representação, é todo um momento favorável, é todo um caminho percorrido, onde outros possivelmente estiveram, e outros estarão. Somos transitórios. Não somos insubstituíveis, no sentido de que outros podem ocupar nossos espaços, e muitas vezes podem fazer pior, ou melhor que nós. O mundo continuará caminhando.
Um segunda frase que adoro:
“Somos prontos pra nos defender, quando somos atacados, mas somos inofensivos, quando somos elogiados” (Sigmund Freud) .

Pense na amplitude disso! Em todas as nossas relações! Não podemos ser melhores? Ter e ver o melhor do outro? Ah, de fato não é fácil resistir a responder, desafiar, quando a gente se indigna, quando algo nos fere, quando somos agredidos... sim, nos defendemos. Mas, podemos reagir de modo mais pró-ativo? Podemos obter o melhor o outro? Podemos aprender juntos, com as diferenças.
Ah, não vou resistir a responder, já que podemos “prever” que alguns dirão: mas você nem é agente penitenciária? Sim, de fato não sou, você está certo. O que mais ouvimos no sistema é: “vocês nem sabem que o acontece dentro da cadeia!”, “vocês não sabem o que é cadeia!”, “vocês não sabem quem é o preso!" Como se de fato, qualquer pessoa não pudesse, ou fosse capaz de aprender e conhecer sem ser através da própria pele, através dos próprios olhos e ouvidos. Assim, não conheceríamos, ou seríamos capazes de aprender mesmo nada sobre o mundo, ou qualquer pessoa. Um delicioso exercício é se colocar no lugar do outro. Então, quero dizer, que nos considero colegas, não inimigos, e podemos acrescentar ao outro, quando dialogamos.
Quero dizer que os admiro pelo trabalho que desenvolvem, e isso também não quer dizer que eu concorde com tudo que fazem, e que também eu esteja certa nas minhas opiniões, desejo apenas, que elas possam ser colocadas para reflexão, assim como reflito quando escuto algo, de alguém que pode (tem todo o direito) de pensar diferente de mim. E vou respeitá-lo do mesmo jeito. Também não concordo com várias coisas no mundo, com várias coisas, da prisão, do sistema, ou da política criminal do Brasil e também com muitas das diretrizes do nosso estado. Mas tenho que respeitá-las.
Não vou ainda resistir a dizer (talvez graves julgamentos!), que acho horrível chamar aquele que se encontra preso de “ladrão” (reafirmando muitas vezes sua condição ou estigma), que acho triste que agentes utilizem as gírias dos presos (pois vocês são modelos e não eles a serem copiados), que acho desnecessário o uso abusivo de algemas (e lá retomem a grande polêmica), pois compreendo que casos específicos a requerem, e que já que a prisão se tornou espaço de tratamento penal, nossa função é trabalhar com essas pessoas pensando que elas retornarão ao convívio, então, considerando algumas exceções (“periculosidade”), precisamos aprender e ensinar ou permitir àquele que se encontra preso a conviver no micro espaço da prisão, para mostrar que é capaz de viver fora, e não fazer o jogo ilógico de encadear, encadear, e depois, um belo dia, “bota na rua”! Na prisão, não pode andar sozinho, não pode conviver, mas fora, “dane-se”, não é nossa responsabilidade. O papel do agente penitenciário é muito mais do que “abrir e fechar cadeado”!
Sei dos riscos da minha fala, sei que cometo erros, e penso também através do outro. E este é o risco de compartilhar. Mas ainda acredito que posso aprender.
Trabalho na Penitenciária Estadual de Foz do Iguaçu praticamente desde inauguração em 2002 (quase 10 anos, o que pode ser pouco pra alguns e muito pra outros). Passei por terceirização, teste seletivo (PSS) e passei em concurso público. Fui refém e sobrevivi, sem revoltas, mas mais realista. Acho apaixonante os desafios de trabalhar na prisão, e talvez me aposente no sistema, se eu sobreviver até lá. Dou aulas de Psicologia Jurídica em faculdades particulares e na escola da magistratura, falando e pensando sobre o sistema, onde me comprometo com leituras e aprendo com os que escreveram e/ou viveram a prisão, dividindo reflexões. E quanta coisa a pensar sobre a prisão, a criminalidade, as relações sociais, as relações de poder, as complexas relações humanas!
E, também, posso dizer que conheço um pouquinho mais, só um pouquinho mais, da vida de um agente penitenciário, pois sou casada com um! (e os homens se confidenciam mais entre si, do que as mulheres, e fofocam menos que as mulheres, e preservam mais sua classe do que as mulheres!) E, considerem, Ricardo e eu divergimos em muitos pontos, pensamos de modo diferente sobre muitas coisas, e mesmo assim, podemos conviver e nos respeitar, e quem sabe até, nos acrescentar!

Agradeço imensamente pela possibilidade de estar aqui, compartilhando com vocês (sejam agentes penitenciários, advogados, médicos, enfermeiros, dentistas, psicólogos, assistentes sociais, professores, técnicos administrativos, etc), torcendo sempre pelo desenvolvimento humano, profissional e social.

1 de dez de 2011

"Temas criminológicos contemporâneos em perspectiva comparada"




A AMAPAR - Associação dos Magistrados do Paraná, promoveu nos dias 24 a 26 de novembro de 2011, o encontro sobre "Temas criminológicos contemporâneos em perspectiva comparada". Abordando assuntos como política de drogas, prisão, crimes ambientais e violência doméstica.

Foi fantástico compartilhar este momento de discussão, onde juízes e desembargadores trouxeram a experiência de uma visita realizada em Hamburgo na Alemanha. Depois de um grande horror social advindo das guerras, a Alemanha apresenta exemplos de políticas sociais com base no respeito à dignidade humana, e que podem servir de reflexão para possíveis políticas de desenvolvimento em nosso país. Claro, não é possível copiar, visto que se trata de um país com grandes diferenças do nosso, mas como conseguiram controle da criminalidade, do tráfico? como reduziram a população carcerária e o número de violências? Como tratam a questão dos abusadores de drogas? Boas discussões! Muito bom partilhar! O convite foi feito por eles à vários políticos, deputados, e nenhum compareceu, para pensar em questões tão importantes.

Excelente ver um debate de questões complexas, que demandam ações interdisciplinares. Muitos representantes da Secretaria de Justiça e Segurança estavam presentes.